O mais importante que você leva não é papel, é a sua história organizada. Reúna como você era na infância e na escola, o que sempre custou e o que veio fácil, e como isso aparece hoje. Some uma lista dos remédios que usa, diagnósticos antigos e, se tiver, boletins e relatos de quem te conhece desde cedo. A entrevista é o centro da avaliação, e tudo isso a alimenta.

Ilustração editorial para o artigo: O que levar à consulta de avaliação de autismo e TDAH

Você marcou a consulta depois de meses adiando. Agora bate a pergunta que ninguém respondeu: o que eu levo? Aí vem o medo de chegar lá, travar, e voltar para casa com a sensação de que não soube contar a própria vida. Como se você precisasse provar algo que nem sabe nomear direito.

A boa notícia é simples: avaliar adulto não é exame de sangue, em que você só estende o braço. É reconstruir uma vida inteira junto com o profissional. E nisso você é a peça principal, porque ninguém conhece a sua história melhor que você. Este texto é a lista do que reunir antes, para o dia render. É educativo e não substitui a consulta.

Vale dizer de saída por que esse preparo importa tanto no adulto, e menos na criança. A criança chega com os pais, que viram tudo de perto e contam a infância em tempo real. O adulto chega sozinho, carregando décadas que ninguém testemunhou inteiras e que a própria memória já reescreveu. Você é, ao mesmo tempo, o paciente e a testemunha. Por isso o que você reúne antes não é burocracia: é a matéria-prima do diagnóstico. Sem ela, o profissional trabalha no escuro; com ela, enxerga a linha que liga a criança que você foi ao adulto exausto que marcou a consulta.

Por que o que você leva muda o resultado da avaliação?

Porque o centro da avaliação do adulto é a entrevista clínica, não um teste isolado. As diretrizes internacionais são diretas nisso: tanto a diretriz britânica de autismo no adulto quanto a de TDAH dizem que o diagnóstico se faz por avaliação clínica completa, cruzando a sua história de desenvolvimento com o seu funcionamento de hoje. Não existe exame de imagem, sangue ou um teste único que feche o caso. O que fecha é a conversa, e a conversa só é boa na medida em que você a alimenta. Quanto melhor o material, mais firme a conclusão, e menor a chance de você sair com um "vamos remarcar para investigar melhor".

Tem um detalhe que pega muita gente: o diagnóstico de autismo e de TDAH exige sinais que já existiam na infância, mesmo que ninguém tenha percebido na época. O DSM-5-TR é explícito: para TDAH, vários sintomas precisam estar presentes antes dos 12 anos; para autismo, os sinais aparecem no início do desenvolvimento, ainda que só se tornem evidentes quando a vida passa a exigir mais do que a pessoa dá conta. Traduzindo: não basta você se reconhecer hoje, é preciso ancorar isso no passado. O adulto que chega ao consultório quase sempre passou a vida mascarando, e o que ficou registrado lá atrás ajuda a enxergar por baixo desse esforço. Por isso reunir a memória da infância vale ouro. Se você quer ver o passo a passo do processo antes, o artigo sobre como é a avaliação de autismo no adulto mostra cada etapa.

E há um motivo prático, quase logístico, para se preparar: o diagnóstico no adulto costuma chegar tarde demais. Revisões da literatura sobre diagnóstico tardio no autismo mostram uma faixa enorme, com pessoas recebendo o reconhecimento de 2 a 55 anos depois dos primeiros sinais, e parte expressiva dos adultos diagnosticada anos depois da primeira vez que procurou um serviço de saúde mental. Você provavelmente já gastou tempo demais sendo lido pela metade. Chegar com a história organizada é a sua forma de encurtar esse atraso, não de alongá-lo. O texto sobre o diagnóstico tardio de autismo no adulto ajuda a entender por que tanta gente só descobre na vida adulta.

O que levar de história da sua vida?

Esta é a parte mais importante, e a que mais gente esquece de preparar. Você não precisa escrever uma autobiografia. Precisa de uma linha do tempo simples, em tópicos, que o profissional vai puxar com perguntas.

Pense em três momentos. Infância e escola: você era a criança quieta no canto ou a que não parava quieta, tinha amigos ou preferia ficar só, repetia rotinas, tinha um assunto que dominava sozinho, esquecia material, vivia no mundo da lua. Adolescência e início da vida adulta: como foi fazer amizade, namorar, estudar, organizar a rotina sem alguém mandando. Hoje: o que mais cansa, o que você evita, onde sente que gasta o dobro de energia que os outros. Anote os exemplos concretos, não os rótulos. "Eu decorava o caminho da escola e entrava em pânico se mudava" diz mais que "eu era ansioso".

O motivo de insistir em exemplo concreto é técnico. Rótulo é interpretação, e interpretação já vem filtrada por anos de gente te dizendo que você era "difícil", "preguiçoso" ou "dramático". O que o profissional precisa é da cena bruta, antes do rótulo. "Eu enfileirava os carrinhos por cor e chorava se alguém trocava a ordem" é um dado. "Eu era TOC" é um palpite. "Eu lia o mesmo livro vinte vezes e sabia trechos de cor" é um dado. "Eu era nerd" é um apelido. Quanto mais cru o exemplo, melhor ele funciona, porque deixa a leitura clínica para quem é treinado para fazê-la.

Uma forma prática de não travar na frente da folha em branco é responder a gatilhos em vez de tentar "lembrar a infância" inteira de uma vez. Pergunte a si mesmo: o que me deixava em pânico que os outros achavam bobagem? Que assunto eu conseguia falar por horas? O que os professores escreviam sobre mim? Como eu reagia a barulho, etiqueta de roupa, comida nova? Eu tinha amigos de verdade ou eu decorava como agir para parecer que tinha? Cada resposta é uma porta. Não precisa preencher todas.

Uma mulher de 38 anos chegou ao consultório convencida de que "não tinha nada da infância para contar", que tinha sido uma criança normal. Ao puxar pela memória, lembrou que passava o recreio na biblioteca porque o pátio era insuportável de barulho, que tinha um caderno secreto com listas de tudo, e que aprendeu a copiar o jeito de rir das colegas em frente ao espelho. Para ela, isso era só ter sido "tímida e estudiosa". Clinicamente, era um retrato de mascaramento começando cedo. Quase ninguém acha que tem história. Quase todo mundo tem.

Que documentos e papéis vale a pena reunir?

Nenhum desses é obrigatório, mas cada um economiza tempo e dá lastro à conversa. Se você tiver, leve. Se não tiver, siga em frente sem culpa.

O que reunir para a avaliação e para que cada coisa serve.
O que levarPara que serve
Lista de remédios em uso, com doseMostra o quadro atual e ajuda no diagnóstico diferencial
Diagnósticos e laudos antigosConta o que já foi investigado e o que ficou pela metade
Boletins, cadernos e comentários de professoresConfirmam que os sinais existiam na infância
Relatos de pais ou irmãos sobre como você era criançaTrazem o olhar de quem viu o seu desenvolvimento
Exames recentes, se algum médico pediuDescartam causas físicas que imitam o quadro
Anotações de testes de triagem que você fezOrganizam a suspeita e abrem a conversa

Sobre o último item: se você respondeu algum questionário pela internet, leve o resultado, mas saiba o lugar dele. Os testes de triagem de autismo e TDAH organizam a suspeita e ajudam a começar a falar, só que não fecham nada sozinhos. Servem de mapa, não de veredito.

Vale um aviso sobre os exames físicos. Vez ou outra um médico pediu hemograma, função de tireoide, dosagem de vitaminas, às vezes um exame de imagem. Leve, mas entenda o porquê: não existe exame de laboratório que detecte autismo ou TDAH. Esses pedidos servem para descartar coisas que imitam o quadro, como hipotireoidismo, anemia, apneia do sono ou deficiências que bagunçam atenção e energia. É o que se chama de diagnóstico diferencial, e o assunto rende um artigo inteiro sobre o que se confunde com neurodivergência. Se você não tem nenhum exame recente, não corra atrás antes da consulta: deixe o profissional decidir o que faz sentido pedir.

Sobre laudos e diagnósticos antigos, principalmente quem rodou o SUS ou trocou de profissional algumas vezes acumula uma pasta de rótulos: ansiedade generalizada, depressão recorrente, transtorno bipolar, transtorno de personalidade. Leve tudo. Não para contestar, mas porque essa trilha conta uma história. Muita gente neurodivergente passou anos sendo tratada só pelo que apareceu por cima, a ansiedade e a depressão que vêm de tanto remar contra a maré, sem que ninguém olhasse a corrente embaixo. Saber o que já foi tentado, o que ajudou e o que não mexeu em nada é informação clínica valiosa.

Como organizar relatos de quem te conhece?

O olhar de fora preenche os buracos da sua memória. Você não lembra de si mesmo aos quatro anos, mas a sua mãe ou o seu irmão mais velho talvez lembrem. Esse relato de quem acompanhou o seu desenvolvimento é tão valorizado que entrevistas estruturadas de TDAH adulto, como a DIVA-5, pedem exatamente isso: história de infância, marcos do desenvolvimento e exemplos ao longo da vida.

Há uma razão científica concreta para isso. A memória adulta do que foi a própria infância é notoriamente falha, e estudos mostram que adultos com transtornos do neurodesenvolvimento tendem a subestimar a gravidade dos sintomas de criança quando comparados ao relato dos pais. O olhar de fora não é luxo, é correção de rota. Vale uma nuance honesta, porém: nem sempre o relato de terceiros muda a conclusão. Um estudo brasileiro de grande porte, do grupo de Porto Alegre, encontrou que, quando o adulto já relatava bem a própria história de TDAH na infância, o relato de um informante acrescentava pouco ao diagnóstico. A leitura prática disso não é "esqueça a família", e sim: o relato de quem te conhece soma muito quando a sua própria memória é nebulosa, e ainda assim vale reunir, porque você nem sempre sabe de antemão o quanto lembra.

Não é preciso que essas pessoas vão à consulta. Antes do dia, pergunte a um ou dois familiares o que eles lembram do seu jeito de criança: como você dormia, comia, brincava, se irritava com barulho ou textura, se tinha birra fora do comum, se ficava obcecado por um tema. Anote as respostas com as palavras deles. Para o presente, um parceiro ou amigo de longa data ajuda a descrever o que você nem percebe mais que faz.

Sei que para muita gente esse pedaço é o mais espinhoso, não o mais trabalhoso. Tem quem não fale mais com os pais, quem tenha uma relação difícil, quem não queira abrir a investigação para a família antes de ter certeza de nada. Está tudo bem. Relato de familiar ajuda, mas não é condição. Se perguntar significa um custo emocional alto, ou simplesmente não dá, a sua memória organizada e exemplos do presente sustentam a avaliação. Ninguém vai recusar te avaliar porque a sua mãe não foi consultada.

O que anotar sobre o seu dia a dia de hoje?

O diagnóstico não se faz só do passado. Ele pede prejuízo concreto agora, no trabalho, nos estudos, nas relações ou na rotina. Então leve exemplos atuais, e leve os de verdade, não os que você acha que soam bem.

Anote onde a sua energia some. A reunião que te deixa exausto pelo resto do dia. As tarefas simples que você empurra por semanas. O barulho do escritório que te faz querer sumir. As conversas em grupo em que você se perde. As contas que atrasam não por falta de dinheiro, mas por não conseguir sentar e resolver. Cada um desses é um dado clínico. Se quiser entender por que esse cansaço pesa tanto, os guias de autismo no adulto e de TDAH no adulto dão nome ao que você sente.

Tem um tipo de exemplo que vale o seu peso em ouro: a estratégia que você criou sem perceber. As pessoas chegam achando que precisam mostrar onde falham, e esquecem de mostrar o quanto trabalham para não falhar. O alarme que toca cinco vezes para sair de casa. As três listas paralelas. O roteiro mental antes de cada ligação telefônica. O combinado de chegar dez minutos antes em todo lugar para não lidar com imprevisto. Os fones de ouvido que você não tira nem para ir ao banheiro do trabalho. Isso não é frescura nem organização exemplar: é a quantidade de andaime que você precisa erguer para fazer o que os outros fazem no automático. Andaime de mais é sinal clínico, e é dos mais reveladores.

Pense também na exaustão que sono não cura, aquele cansaço de fundo que dormir o fim de semana inteiro não dissolve. Anote quando ela aperta: depois de um dia de muitas interações? De um ambiente barulhento? De uma semana sem rotina? Esse mapa de quando você descarrega ajuda o profissional a distinguir, por exemplo, um desligamento por sobrecarga sensorial de um quadro depressivo, que pedem caminhos diferentes.

E se eu suspeito de mais de uma coisa ao mesmo tempo?

Muita gente chega já com a pulga atrás da orelha de que pode ser autismo e TDAH juntos, ou neurodivergência somada a altas habilidades. Isso é mais comum do que parece, não é você complicando: o DSM-5-TR passou a reconhecer formalmente que autismo e TDAH coexistem na mesma pessoa, algo que a versão anterior do manual nem permitia diagnosticar junto. Quando há essa suspeita dupla, o seu preparo muda um pouco.

Anote separadamente os dois fios. De um lado, o que parece mais autismo: o peso do social, a necessidade de rotina e previsibilidade, a sobrecarga sensorial, os interesses intensos, a comunicação literal. De outro, o que parece mais TDAH: a desatenção, o esquecimento, a impulsividade, a procrastinação que não cede nem na marra, a inquietação. Não para você fechar o diagnóstico, isso é trabalho de quem avalia, mas para o profissional ter os dois conjuntos de exemplos na mesa. O texto sobre TDAH e autismo na mesma pessoa e o sobre dupla excepcionalidade, quando entra alta habilidade na conta, ajudam a separar o que é o quê. Se a suspeita inclui altas habilidades, vale ler também como se avalia altas habilidades no adulto.

Muda alguma coisa se eu sou mulher?

Muda, e bastante, no que vale a pena reunir. O autismo e o TDAH foram descritos a partir de meninos, e por décadas o modelo mental de quem diagnosticava era masculino. O resultado é que muitas mulheres chegam à vida adulta sem rótulo nenhum, ou com uma pilha de rótulos errados, porque o jeito delas de ser neurodivergente não bate com a caricatura. A apresentação costuma ser mais discreta por fora e mais custosa por dentro: o mascaramento tende a ser mais intenso, os interesses intensos parecem socialmente aceitáveis, e a sobrecarga vira ansiedade e depressão antes de virar suspeita de autismo.

Se você é mulher, ou foi socializada como menina, reforce na sua preparação tudo que costuma passar despercebido: o esforço invisível de parecer "normal", a exaustão depois de eventos sociais, as amizades intensas e instáveis, a sensação de estar sempre atuando um papel. Leve também os diagnósticos anteriores de ansiedade, depressão, transtorno alimentar ou de personalidade, porque é exatamente nesse caminho de rótulos sucessivos que tantas mulheres se perdem por anos. O texto sobre mulheres autistas e diagnóstico tardio aprofunda esse ponto.

O que você não precisa levar (e o que tira o foco)?

Tem gente que se enrola tentando preparar a coisa errada e chega esgotado antes de começar. Vale separar o que ajuda do que atrapalha.

Mito e fato sobre o que levar à avaliação do adulto.
O que muita gente achaO que de fato acontece
Preciso de laudo da infância para ser avaliadoAjuda, mas a história organizada e o relato de família cobrem a falta
Tenho que provar que sou autista ou tenho TDAHQuem investiga é o profissional; você leva a sua história, não a prova
Quanto mais teste de internet, melhorUm já basta como ponto de partida; o excesso vira ruído
Devo esconder os meus pontos fortes para parecer piorO que vem fácil também é dado; esconder atrapalha o diagnóstico
Se eu travar na hora, perco a avaliaçãoTravar é comum; por isso você leva tudo anotado

Aquela última linha merece atenção. Esconder o que você faz bem para "garantir" o diagnóstico só confunde quem avalia, porque o quadro real inclui as suas forças. E lembre: você não está num tribunal. Se a dúvida é quem conduz tudo isso, o texto sobre psiquiatra, neuro ou psicólogo, quem avalia o quê esclarece o papel de cada profissional.

Muda o que eu levo se for pelo SUS ou particular?

O conteúdo é o mesmo: a sua história, os exemplos, os documentos. O que muda é o contexto, e vale você saber dele antes de chegar. No SUS, o caminho costuma passar por encaminhamento da atenção básica, fila de espera e, muitas vezes, consultas mais curtas e fragmentadas entre profissionais diferentes. Justamente por isso, chegar com tudo organizado por escrito vale ainda mais: pode ser a diferença entre aproveitar os vinte minutos que você tem ou perdê-los reconstruindo do zero a cada novo profissional que te atende. Leve a sua linha do tempo impressa, pronta para entregar.

No particular, o tempo costuma ser mais generoso e o processo mais contínuo, mas o preparo continua sendo o que torna a avaliação eficiente, ou seja, mais curta e mais barata. Em qualquer um dos dois, vale conferir uma coisa nada burocrática: quem assina o diagnóstico precisa ter registro de especialista. No Brasil, o RQE (Registro de Qualificação de Especialidade) é o que comprova, junto ao Conselho de Medicina, que o médico é de fato especialista naquela área. Não é detalhe: para laudos, perícias e direitos, um documento assinado por quem tem RQE pesa diferente. O artigo que compara avaliação no SUS e no particular destrincha prós e contras de cada via.

E se eu precisar do laudo para garantir um direito?

Para boa parte das pessoas, a avaliação é sobre se entender, e ponto. Mas para outras, há um objetivo prático por trás, e isso muda o que vale a pena reunir. No Brasil, a Lei 12.764/2012, a Lei Berenice Piana, estabelece que a pessoa com transtorno do espectro autista é considerada pessoa com deficiência para todos os efeitos legais. Na prática, isso pode abrir portas: cotas em concursos e no trabalho, prioridade em atendimentos, e, a depender de critério socioeconômico, benefícios como o BPC/LOAS, o Benefício de Prestação Continuada, que garante um salário mínimo a quem comprova não ter meios de se sustentar.

Se o seu caso envolve qualquer um desses direitos, diga isso ao profissional logo no começo. Não para mudar a conclusão clínica, que segue sendo o que é, mas porque um laudo voltado a garantir um direito precisa de certos elementos: o código diagnóstico na CID-11, a descrição funcional do impacto na sua vida, a assinatura de quem tem RQE. O texto sobre o que um laudo de autismo ou TDAH precisa ter detalha isso. Importante não confundir, contudo: o objetivo do direito não pode contaminar a honestidade do relato. Você leva a sua história verdadeira; o que ela sustenta em termos de laudo é consequência, não meta.

Como chegar no dia com a cabeça no lugar?

Preparar o conteúdo é metade. A outra metade é chegar inteiro. Leve as suas anotações no papel ou no celular, e diga ao profissional logo no começo que você anotou para não esquecer. Isso tira o peso de ter que lembrar de tudo na hora. Se a ansiedade aperta, chegue com folga, sem correria, e leve água.

Se a consulta é online, teste antes a câmera, o som e a conexão, e escolha um canto onde ninguém vá interromper. Tenha à mão a lista de remédios e as anotações na mesma tela ou impressas. E não se cobre por uma performance: o seu papel é contar a sua vida do seu jeito, não impressionar. Se a dúvida for se esse formato tem a mesma validade da consulta presencial, o texto sobre avaliação de autismo e TDAH online responde com o que diz a CFM e o que mostram os estudos. Para escolher bem quem vai te avaliar, vale ler como escolher um profissional de neurodivergência, e a página de avaliação de autismo adulto e a de psiquiatria para TDAH adulto mostram como o atendimento acontece na prática. Se o que você espera no fim é um documento, o texto sobre o que um laudo bem feito precisa ter ajuda a alinhar a expectativa.

Um homem de 42 anos contou que tinha ensaiado a consulta por dias, decorado o que dizer, e que mesmo assim, no momento, deu branco total e ele saiu achando que tinha estragado tudo. Não tinha. Ele havia mandado, antes, um documento de uma página com a sua linha do tempo, e foi esse papel que conduziu a conversa quando a voz não saiu. O branco não é falha sua; é, muitas vezes, o próprio quadro se mostrando ao vivo. Por isso a regra de ouro: o que está anotado não depende de você lembrar na hora.

Para fechar, um resumo do que separar nos dias que antecedem a consulta, com a função de cada peça:

Checklist do que reunir antes da avaliação de autismo, TDAH e altas habilidades no adulto.
ItemPor que importa
Linha do tempo em tópicos: infância, juventude, hojeÉ o material central da entrevista, que é o coração da avaliação
Três a cinco exemplos concretos por faseCena bruta vale mais que rótulo já interpretado
Lista de exemplos do esforço invisível (suas estratégias)Mostra quanto andaime você ergue para funcionar
Lista de remédios com dose e diagnósticos antigosSustenta o diagnóstico diferencial
Relato de um ou dois familiares, se for possívelCorrige os buracos da sua memória de infância
Resultado de uma triagem, se você fezAbre a conversa, sem fechar nada
Objetivo declarado (entender-se? laudo? direito?)Ajusta o que o profissional documenta no fim

Depois de reunir tudo isso, vale conferir também quem tem competência para assinar o laudo final. O artigo sobre quem pode dar laudo de autismo e TDAH detalha essa distinção entre profissionais.

Importante: este conteúdo tem caráter educativo e não substitui avaliação, diagnóstico ou acompanhamento médico individual. O que cada profissional pede pode variar conforme o caso.

Cartão de bolso (se esquecer tudo, lembra disso)

  • O essencial é a sua história organizada, não uma pilha de papéis.
  • Monte uma linha do tempo: infância e escola, juventude, hoje, com exemplos concretos.
  • Leve a lista de remédios com dose e os diagnósticos e laudos antigos.
  • Boletins e relatos de pais ou irmãos confirmam os sinais da infância.
  • Teste de triagem é ponto de partida, nunca veredito. Um basta.
  • Anote tudo antes e leve as anotações. Travar na hora é comum e esperado.

Perguntas frequentes

A sua história de vida organizada. Como você era na infância e na escola, o que sempre custou e o que sempre veio fácil, e como isso aparece hoje no trabalho e nas relações. A entrevista clínica é o centro da avaliação do adulto, então tudo que ajuda a reconstruir essa linha do tempo vale mais que qualquer teste avulso.

Ajuda muito, mas não é obrigatório. Boletins, comentários de professores, cadernos antigos e fotos servem para confirmar que os sinais existiam cedo, algo que o diagnóstico de autismo e TDAH no adulto pede. Se você não tem nada disso, não há problema: a memória organizada e o relato de familiares cobrem essa parte.

Pais, irmãos mais velhos, tios, avós ou qualquer adulto que tenha convivido com você na infância. Vale também parceiro ou amigo de longa data para falar do presente. Não precisa que essas pessoas vão à consulta. Basta você anotar antes o que elas lembram sobre o seu jeito de criança.

Pode levar, serve como ponto de partida da conversa. Mas teste de triagem não fecha diagnóstico, apenas organiza a suspeita. O profissional vai usar o resultado como mais um dado, junto da entrevista e da sua história, nunca como conclusão sozinho.

Sim, sempre. Anote o nome e a dose de tudo que você toma, inclusive para ansiedade, depressão, sono e dor. Leve também diagnósticos antigos e laudos que já tenha. Isso ajuda no diagnóstico diferencial, que separa o que é neurodivergência do que pode ser outra coisa parecida.

Por isso você anota antes. Leve as suas anotações no papel ou no celular e mostre ou leia para o profissional. Esquecer no momento é comum, ainda mais com ansiedade. Um bom avaliador entende isso e conduz a entrevista com perguntas que ajudam você a lembrar, sem pressa.

Não complique. O essencial é a sua história, uma lista de remédios e o que mais pesa hoje no seu dia. O resto é bônus. Se você chegar só com a vontade de ser entendido e algumas anotações soltas, já dá para começar. Preparar ajuda a aproveitar melhor o tempo, não é uma prova.

Pode, sim. O relato de familiares ajuda a preencher os buracos da memória de infância, mas não é condição para a avaliação. Se você não tem contato com pais ou irmãos, ou se perguntar custaria caro emocionalmente, a sua memória organizada e exemplos do presente sustentam o processo. Ninguém vai recusar te avaliar porque a sua família não foi consultada.

O conteúdo é o mesmo: a sua história, exemplos concretos e documentos. O que muda é o contexto. No SUS, com consultas mais curtas e por vezes fragmentadas, chegar com tudo impresso e organizado vale ainda mais. No particular, o tempo costuma ser maior, mas o preparo deixa a avaliação mais eficiente. Em qualquer via, confira se quem assina o diagnóstico tem RQE, o registro de especialista, que pesa para laudos e direitos.

Referências

  1. American Psychiatric Association. Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais: DSM-5-TR. Porto Alegre: Artmed, 2022.
  2. Organização Mundial da Saúde. CID-11: Classificação Internacional de Doenças, 11ª revisão. Transtorno do espectro autista (6A02) e transtorno de déficit de atenção e hiperatividade (6A05). 2022. Disponível em: https://icd.who.int/browse11/l-m/en.
  3. National Institute for Health and Care Excellence (NICE). Autism spectrum disorder in adults: diagnosis and management (CG142). 2021. Disponível em: nice.org.uk/guidance/cg142.
  4. National Institute for Health and Care Excellence (NICE). Attention deficit hyperactivity disorder: diagnosis and management (NG87). 2019. Disponível em: nice.org.uk/guidance/ng87.
  5. DIVA Foundation. DIVA-5: Diagnostic Interview for ADHD in adults (entrevista estruturada baseada no DSM-5, com história de desenvolvimento e informante). Disponível em: divacenter.eu.
  6. Conselho Federal de Medicina. Resolução CFM nº 2.336/2023 (registro de especialidade e RQE do médico que assina o diagnóstico). Disponível em: cremeb.org.br.
  7. American Psychiatric Association. Attention-Deficit/Hyperactivity Disorder (ficha técnica do DSM-5: vários sintomas presentes antes dos 12 anos; cinco sintomas a partir dos 17 anos). Disponível em: psychiatry.org.
  8. Russell AS, McFayden TC, McAllister M, et al. Who, when, where, and why: a systematic review of "late diagnosis" in autism. Autism Research. 2024;18(1):22-36 (faixa de atraso do diagnóstico de 2 a 55 anos após os primeiros sinais). DOI · PubMed.
  9. Breda V, Rovaris DL, Vitola ES, et al. Does collateral retrospective information about childhood attention-deficit/hyperactivity disorder symptoms assist in the diagnosis of attention-deficit/hyperactivity disorder in adults? Findings from a large clinical sample. Australian and New Zealand Journal of Psychiatry. 2016;50(6):557-565. Estudo brasileiro do grupo de Porto Alegre. DOI · PubMed.
  10. Brasil. Lei nº 12.764, de 27 de dezembro de 2012 (Lei Berenice Piana). Institui a Política Nacional de Proteção dos Direitos da Pessoa com Transtorno do Espectro Autista; considera a pessoa com TEA pessoa com deficiência para todos os efeitos legais. Disponível em: planalto.gov.br.
Dr. João Carlos Leitão, médico psiquiatra
Dr. João Carlos Leitão
Médico Psiquiatra · CRM-PE 19651 · RQE 10486 · Mestre em Autismo (ISEP, Barcelona)

Pronto para dar o passo da avaliação?

Se você reuniu a sua história e quer ser ouvido por quem avalia adulto de verdade, a consulta é o próximo passo. Atendimento online, de qualquer lugar do Brasil, também aberto a quem ainda investiga. Para entender a vivência neurodivergente adulta por dentro, o livro NAEL é um bom ponto de partida.